7 de Outubro, 2023
Horário: 21:30
Local: Igreja da Misericórdia
Cidade: Santa Maria da Feira

Real Câmara

A Real Câmara é uma orquestra portuguesa focada na interpretação historicamente informada, com ênfase no repertório setecentista português e suas conexões com a Itália. Fundada por intérpretes portugueses com formação em Música Antiga, a orquestra centraliza e fortalece um trabalho já realizado por vários membros, em colaboração com o maestro Enrico Onofri. Estreou em 2021 com um programa no Palácio Nacional da Ajuda, seguido por apresentações em festivais e gravações. Seu compromisso é resgatar o patrimônio musical histórico, explorando ligações entre Portugal e Itália, e divulgá-lo internacionalmente, mantendo padrões musicais elevados. A biblioteca da Ajuda e outros arquivos são fontes fundamentais. A orquestra visa divulgar repertório inexplorado do século XVIII, tanto fonograficamente quanto em concertos internacionais.

 

Enrico Onofri, violino e direção

Enrico Onofri nasceu em Ravenna, Itália.

É maestro titular da Filarmonica Toscanini em Parma, maestro convidado principal da Haydn Philharmonie em Eisenstadt, maestro associado da Orquestra Nacional d’Auvergne, maestro associado da Münchener Kammerorchester, director musical e maestro da orquestra Academia Montis Regalis.

Enrico cresceu no atelier de antiguidades dos seus pais, cercado pela beleza do passado desde o início dos seus estudos musicais, e desenvolvendo, assim, uma paixão pelas performances
históricas. Como maestro e solista, foi assim levado a explorar o repertório dos séculos XVII a XX, criando a sua linguagem pessoal através do conhecimento das práticas históricas, concebidas como fontes extraordinárias de inspiração para novas ideias e panoramas de interpretação.

A sua carreira começou com um convite de Jordi Savall para ocupar o lugar de violino principal no agrupamento La Capella Reial de Catalunya, quando era ainda estudante. Depois disso, rapidamente começou a trabalhar com grupos como Concentus Musicus Wien, Ensemble Mosaïques ou Il Giardino Armonico, ensemble que liderou como concertino de 1987 a 2010.

Em 2002, iniciou a carreira de maestro, o que lhe valeu muitos elogios da crítica e inúmeros convites por parte de orquestras, casas de ópera e festivais na Europa, Japão e Canadá. De 2004 a 2013, foi maestro principal do ensemble Divino Sospiro, em Lisboa, desde 2006 é maestro convidado principal da Orquesta Barroca de Sevilla, e desde 2021 é maestro principal da Orquestra Barroca Real Câmara, em Lisboa.

Recebeu convites para maestro ou maestro em residência por parte de orquestras como Akademie für Alte Musik Berlin, Camerata Bern, Festival Strings Lucerne, Kammerorchester Basel, Bochumer Symphoniker, Wiener Kammerorchester, Tafelmusik Toronto, Orchestra Ensemble Kanazawa, Orchestra del Maggio Musicale Fiorentino, Real Orquesta Sinfonica de Sevilla, Orchestre de l’Opéra de Lyon, Orquesta Sinfonica de Galicia, Orquestra Metropolitana de Lisboa, Real Filharmonia de Galicia, Riga Sinfonietta, entre outras.

 

Programa

Pedro Jorge Avondano (1692-ca.1755?)

Divertimento I, em Dó menor *§
Largo — Fuga — Largo — Allegro
(1748, Divertimenti a due violini e bassi, Bayerische Staatsbibliothek – Munique)

 

Giovanni Bononcini (1670-1747): “Mio sposo t’arresta” *

Ária de Tamiri do Dramma per Musica Farnace (Bibliothèque Nationale de France – Paris)

 

Pedro Jorge Avondano (1692-ca.1755?)

Divertimento II, em Sol maior *§
Andante — Allegro — Andante — Allegro
(1748, Divertimenti a due violini e bassi, Bayerische Staatsbibliothek – Munique)

 

Francisco António de Almeida: “Nell’incognito soggiorno” *

Ária de Phito do Dramma comico da cantarsi La Pazienza di Socrate (1733, Biblioteca Nacional de Portugal – Lisboa)

 

Francisco António de Almeida (1703-1754): “Ogni fronda chè mossa dal vento” *

Ária de Calipso da Serenata Il Vaticinio di Pallade, e di Mercurio (1731, Biblioteca Nacional de Portugal – Lisboa)

 

Pedro Jorge Avondano (1692-ca.1755?)

Divertimento III, em Lá menor *§
Adagio — Allegro — Largo — Allegro
(1748, Divertimenti a due violini e bassi, Bayerische Staatsbibliothek – Munique)

 

Francisco António de Almeida: “Camminante che non cura face amica” *

Ária de Alcibiade do Dramma comico da cantarsi La Pazienza di Socrate (1733, Biblioteca Nacional de Portugal – Lisboa)

 

Pedro Jorge Avondano (1692-ca.1755?)

Divertimento IV, em Ré menor *§
Largo — Allegro — Adagio — [Allegro]
(1748, Divertimenti a due violini e bassi, Bayerische Staatsbibliothek – Munique)

 

Rinaldo di Capua: “Tutti nemici e rei, tutti tremar dovete”

Ária de Adriano do Dramma per Musica Adriano in Siria (1758, Biblioteca do Palácio Nacional da Ajuda – Lisboa)

* Primeira gravação mundial
§ Versão para “Concerto Grosso de F.M. Jalôto

 

Notas ao programa

Lisboa no final do século XVII mantinha-se muito afastada da vida cosmopolita das outras capitais europeias, mesmo sendo uma das mais populosas cidades do seu tempo. Será apenas nos reinados de D. João V e do seu filho D. José I que Lisboa se transformará progressivamente numa metrópole moderna e desenvolvida. D. João V, todo-poderoso devido à afluência do ouro e dos diamantes do Brasil, sonha agora com os esplendores da Roma papal e da Versalhes de Luís XIV. Percebendo a importância da religião na sociedade portuguesa, D. João V interessa-se especialmente pela música sacra. Envia para Roma jovens e talentosos músicos, entre os quais Francisco António de Almeida (1703-1754), para estudarem com os mestres italianos. Por sua vez, a rainha D. Maria Ana de Áustria foi a principal responsável pela revitalização da música profana na corte portuguesa, estabelecendo o costume das grandes serenatas de corte e os espectáculos operáticos durante o Carnaval. Francisco António de Almeida (1703-1754) compôs obras em estilo arcádico, primeiro em Roma para a embaixada portuguesa e, já em Lisboa, as primeiras óperas portuguesas – em língua italiana – e várias serenatas de corte. La Pazienza di Socrate é uma ópera cómica composta por Almeida sobre um libreto adaptado por Alexandre de Gusmão (1695-1753), secretário pessoal do rei. O texto original, usado anteriormente em Viena, foi seguramente importado por ordem da rainha D. Maria Ana. O programa propõe duas árias desta obra, que infelizmente sobrevive incompleta, não permitindo a sua recuperação integral. De entre as serenatas, destaca-se Il Vaticinio di Pallade, e di Mercurio, cantada no Palácio Real da Ribeira em 1731. Apresenta-se aqui uma ária desta obra — da qual também só sobrevivem extractos. Chegaram à corte de Lisboa vários grandes músicos italianos, contratados pelo Magnânimo. O mais famoso foi, sem dúvida, Domenico Scarlatti, mas também importantíssimo para a história da música portuguesa foi Pedro Jorge Avondano (1692-ca.1755?), violinista genovês naturalizado português, que foi o líder da orquestra da Real Câmara no tempo de D. João V. As suas obras foram conhecidas e apreciadas no estrangeiro, sobrevivendo em Dresden alguns trios de cordas, a que se veio juntar uma colecção recentemente descoberta de divertimentos para cordas, preservados em Munique. Atraídos por este novo e florescente centro musical, acorreram a Lisboa muitos músicos de grande prestígio internacional, como Gaetano Maria Schiassi (1698-1754), que foi o director do primeiro teatro de ópera público em Lisboa, a Academia da Trindade. Para essa sala, o grande Giovanni Bononcini (1670-1747) compôs a sua ópera séria Farnace, estreada no Carnaval de 1735, e da qual se recupera a única ária conhecida que sobreviveu. O napolitano Rinaldo di Capua (ca.1705- ca.1780) foi outro famoso compositor que residiu alguns anos em Lisboa, tendo aqui composto pelo menos três óperas, das quais se conservou Catone in Utica, ainda que incompleta. Foi estreada no Teatro da Rua dos Condes em 1740, e dela recuperamos uma ária, assim como um outro excerto de um dos seus posteriores sucessos, a ópera Adriano in Siria, composta em Roma em 1758. Graças ao intenso trabalho de investigação levado a cabo nos últimos anos, tem sido possível resgatar alguns verdadeiros tesouros, como os que são agora dados a ouvir, que comprovam a vitalidade da música em Portugal durante o reinado do «Rei Magnânimo».

Fernando Miguel Jalôto